O tiroteio à nossa volta dificulta-nos a audição
Mas a voz humana é diferente dos outros sons
Pode ser ouvida sobre outros sons que abafam tudo o resto
Até mesmo quando não há gritos
Até mesmo quando é só um murmúrio
Até mesmo o mais leve murmúrio pode ser ouvido sobre o
barulho dos exércitos quando diz a verdade.
Jornaleiros do Douro – (Emílio Biel)
Poema retirado do filme “The Interpreter”
Na noite do dia 19 começou a correr pela cidade que os sinos das aldeias tocavam a rebate, convidando o povo a dirigir-se a Lamego para pedir à Câmara o seu apoio à sagrada questão do Douro. Na manhã do dia 20 de abril de 1915, umas 4 ou 5 mil pessoas das freguesias vinhateiras do concelho armadas de varapaus, foices, machados, etc., entraram na cidade, obrigando todo o comércio a fechar as suas portas e obrigando também os principais proprietários a acompanhá-los ao edifício dos Paços do Concelho nessa romaria que depois tão triste e tão fúnebre se tornou (1).
A liderar essa multidão ia um popular a empunhar uma bandeira negra com a seguinte frase: “O Sul mata-nos à fome!”. Todos se dirigiram ao Município e aí foi nomeada uma comissão para se reunir com a vereação e autoridade administrativa sobre a atitude a tomar perante a gravíssima questão do Douro. Durante a tal reunião tudo correu dentro da ordem. Depois…
“Duma das varandas um soldado arremessou sobre a multidão a barretina onde reluzia um 9 metálico. Os lídimos e brilhantes esteios da ordem, todos com larga folha de baixos serviços políticos […] supuseram a República em perigo… iam cambalear as instituições políticas da terreola e lugubremente, com gesto carniceiro, despejaram bombas sobre a multidão inerme e de cabeça descoberta. Na multidão abriram-se grandes clareiras sangrentas e gritos agudos encheram os ares. Civis, no mais aceso orgulho de cidadãos livres, arrancaram as espingardas aos soldados e visaram os fugitivos, atingindo-os pelas costas. ” (in Sangue Plebeu de Pina de Morais).
Em jeito de singela homenagem, aqui fica a relação dos mortos no “Motim de Lamego”:
– Franscisco dos Santos Araújo (jornaleiro de Portelo de Cambres)
– Manuel Carneiro (sapateiro de Britiande)
– Francisco Guedes (jornaleiro de Pomarelhe de Cambres)
– Maximiano da Silva (proprietário de Valdigem)
– Bernardo Pinto (casado, Riobom de Cambres)
– João Cardozo (casado, Parada do Bispo)
– José Gomes Rabito (casado, do Ladario de Cambres)
– Pedro da Silva (casado, de Quintião Cambres)
– José da Rede (casado, feitor da Quinta dos Sequeiros)
– António Ribeiro (casado, de Riobom de Cambres)
– Ana Taininha (de Valdigem)
(1) JORNAL “A FRATERNIDADE”. V ANO, N.º 241, DE 24 DE JULHO 1915








